segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Polícia da Língua" - 10

 Conheço uma pessoa (culta, instruída, internacionalmente premiada) que, em início de carreira como executivo, dizia "interpletação" de texto, e não a forma correta "interpretação", porque achava que esse "pre" podia estar errado... Ele mesmo me contou, rindo de si mesmo, essa passagem de sua vida (e não pediu segredo)!

Acho que o que ocorreu no cartaz ao lado foi o mesmo "fenômeno": quem escreveu o anúncio promocional deve ter achado que faltava algo em "bandeja" (a forma correta), e acabou colocando um i onde não havia.

A palavra bandeja é derivada do verbo bandejar, e significava, inicialmente, uma espécie de abano de palha que se usava para limpar cereais, especialmente o trigo. Modernamente, usamos esse vocábulo para designar aqueles tabuleiros para serviço de mesa. Mas sem i, não esqueça!








quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O que é catacrese?

Provavelmente, você já aprendeu na escola que Catacrese é uma figura de linguagem. E aprendeu certo: é um recurso de estilo em que ampliamos o sentido de uma palavra em um processo de analogia. Em outras palavras: catacrese é o uso de uma expressão com significado além daquilo que em geral costuma significar. Veja o exemplo retirado da obra D. Casmurro, de Machado de Assis:

"Como eu houvesse resolvido falar no cemitério, escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias, que as achou realmente dignas do morto e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando as palavras, e confirmou a primeira opinião; no Flamengo espalhou a notícia."

O verbo espalhar, em seu sentido estrito, quer dizer "separar a palha de algo (de um cereal, por exemplo)". É o mesmo que despalhar. Porém, no trecho acima, Machado de Assis usou o verbo espalhar (por analogia) com o sentido de divulgar a notícia, como se ela fosse sendo lançada ao vento tal qual a palha que se retira de algum vegetal, dispersando-se.

Nesse sentido, a catacrese é um processo metafórico. De fato, o uso desgastado de algumas metáforas acabaram configurando catacreses: pé da mesa, bico do bule, braço do sofá, dente de alho, entre tantos outros.

É provável que essas utilizações sejam originadas pela falta de uma palavra específica para expressar aquilo que se pretendia dizer. É por isso que se considera catacrese um uso impróprio ou até abusivo de uma palavra. Aliás, em grego (Katákhresis) significa exatamente mau uso.

Em todo caso, a catacrese é um uso criativo e adaptativo a que os falantes da língua recorrem, segundo convém, para suprir uma lacuna no sistema linguístico que nem sempre disponibiliza todas as expressões necessárias para designar as coisas.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

"Polícia da Língua" - 9

Antes de numeral, só ocorre crase se ele estiver indicando hora. Desse modo, na placa ao lado há um erro no uso do acento grave. O correto é: "Retorno a 500 m" . É bom acrescentar que a abreviação de metros é um m minúsculo sem ponto. Fique atento!

Leia toda a série "Polícia da Língua".



terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crase

Crase é a combinação de dois sons idênticos e, em seguida, a contração desses sons. Em português moderno, ocorre crase com dois as (aa), em que o primeiro a é uma preposição e o segundo um artigo feminimo, um pronome demonstrativo ou a palavra aquele(a(s)). Veja os exemplos:

1- Chegarei às 10 h (preposição a + artigo as);
2- Ele não se referiu a esta caneta, mas à do seu irmão (preposição a + pronome demonstrativo a);
3- Ele foi àquela cidadezinha novamente (preposição a + aquela).


Na placa ao lado, na locução à esquerda de fato há crase de uma preposição + um artigo (aa). Porém, na expressão circulada só ocorre um artigo, pois o verbo manter não exige a preposição a. Quem mantém, mantém algo (no caso, a direita). Só haveria crase nessa locução se o verbo fosse acompanhado de um pronome (Mantenha-se à direita). Para mais um exemplo, clique aqui.



 
Fiz até aqui algumas breves explicações de crase para fins didáticos, o que interessa ao estudante da língua materna por diversos motivos, entre eles o fato de que crase é um dos tópicos gramaticais exigidos nos exames e concursos.

Mas, para além dessa descrição sincrônica, quero satisfazer a curiosidade daqueles que se interessam pelo fenômeno da linguagem um pouco mais a fundo.

Quando estudamos Gramática Histórica (ou Linguística Diacrônica), deparamo-nos com o fenômeno da crase no transcurso evolutivo da língua, entendida como a fusão de duas vogais idênticas, quaisquer que sejam. Observe o exemplo:

Considere a palavra pede (do latim). Essa palavra perde o d e vira pee. Por crase, os dois ee se fundem, o que origina pe, que modernamente é . Costumamos demonstrar o percurso assim: pede > pee > pe > (em que o sinal > significa evoluiu para). Interessante, não?

A título de curiosidade, quero finalizar lembrando que em Grego a crase é representada por um sinal diacrítico chamado corônis ('), igualzinho ao apóstrofo, que é colocado em cima da vogal em que há contração, diferentemente do caso da nossa língua, em que usamos o acento grave (`) para indicar crase.




segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Polícia da Língua" - 8


Sempre que usamos o acento grave (`) indicador de crase, assinalamos que ali há dois as (aa), como nos exemplos:

1) "Fui aa padaria", grafamos "Fui à padaria";

2) "Maria está aa porta", escrevemos "Maria está à porta".

Mas na placa de advertência ao lado, alguém exagerou: não existem ali dois as, mas um só. O correto é escrever "Reduza a velocidade". É melhor não pecar pelo excesso...

Veja toda a série "Polícia da Língua".